Era uma noite nublada.
Não se via as estrelas no céu.
Abner corria por entre as árvores.
Estava em um parque dentro da cidade de São Paulo.
Estava tentando sair desse parque.
As árvores impediam que as luzes dos postes da avenida ao lado do parque pudessem iluminar seu caminho. Era difícil encontrar um bom lugar para se esconder.
Abner corria. Estava com medo. Fugia.
Olhava para trás. Aparentemente as luzes da polícia não o procuravam.
Mas e se os policiais estivessem escondidos?
Temia que a polícia pudesse pegá-lo e levá-lo a algum tipo de interrogatório.
Por um simples motivo: tinha medo da reação de seus pais.
Se seus pais fossem chamados, como ele se explicaria? O que ele diria ao ser questionado sobre o que fazia num parque repleto de homossexuais que procuravam por sexo fácil?
Ainda mais ele, com apenas dezesseis anos, ótimo filho, dedicado aos estudos e aos esportes.
Abner dava por certo que sua família desabaria. Era muito religiosa. Tanto que lhe deram um nome hebraico que significa “Pai da iluminação”. Realmente seu nome não combinava com aquela escuridão toda em que estava metido naquele momento.
Quando Abner conheceu Mateus em uma sala de bate papo, jamais pensou que poderia viver aquela situação...
...
Entre tantas pessoas com quem Abner conversara pela internet, Mateus foi a única pessoa que lhe transmitiu confiança. O único cara com quem realmente tinha coragem de se abrir.
Mateus era discreto.
Conversava como um homem; gostava de coisas de homem.
Aparentemente, sempre guardaria segredo sobre os desejos de Abner.
Durante muito tempo, Mateus e Abner trocaram várias palavras de carinho e juras de amor em suas conversas pela internet.
Abner adiou por muito tempo um primeiro encontro.
Aceitou apenas quando tinha certeza de que poderia confiar.
E mesmo assim, errou.
Naquela tarde, Mateus, com vinte e quatro anos, convidara Abner para um passeio de carro pela cidade.
Abner disse aos pais que passaria a noite na casa de seu primo Érico.
Mas Mateus não o levou a um bar, conforme prometido.
Percebendo que Abner não entraria em um Motel por causa de sua idade, Mateus o levou para o estacionamento do parque do Ibirapuera.
Naquela noite, no estacionamento do parque do Ibirapuera, vários homens circulavam, passeavam, bebiam, namoravam. Abner se sentiu assustado. “Será que alguém conhecido pode aparecer?”
Ali mesmo, Mateus pediu um beijo de Abner, que tremia.
Por um lado tremia por estar assustado por estar em um lugar que era tão estranho e diferente àquela hora. Por outro lado, estava nervoso por poder estar ao lado de outro cara pela primeira vez.
Quando sentiu os lábios de Mateus, Abner quase desmaiou.
Eram lábios fortes, dominadores. Bem diferentes das meninas a que Abner costumava beijar na escola para agradar seus colegas e sua família.
As mãos fortes de Mateus se prendiam com força ao corpo de Abner. Era um carinho bruto.
Abner ficava sem fôlego. Seu coração estava a mil.
As mãos de Mateus desceram pelas costas de Abner. Essas mãos tentaram entrar por dentro da calça jeans.
Abner gostou.
Mas ainda temia as pessoas em volta.
Enquanto Mateus e Abner estavam aos beijos e abraços, um homem alto e forte passou ao lado.
Abner mal percebeu a presença do estranho num primeiro momento.
Mas, de repente, Abner percebe que havia mais uma mão sobre suas costas, mais um corpo a encostar-se ao seu.
Abner se esquivou.
Esperou que Mateus tomasse uma atitude de ciúmes.
Mas Mateus apenas sorria pra o grandalhão.
Foi quando Abner percebeu que Mateus estava planejando uma suruba.
A cabeça de Abner pareceu sair de um transe, acordar para a vida.
Na marra.
Esperava encontrar em Mateus um namorado, um cara compreensivo e legal.
Mateus em momento algum se demonstrou um tarado, alguém que dividiria seu namorado como se fosse um pedaço de lanche qualquer, logo no primeiro encontro, logo no primeiro momento.
Abner sai do meio dos dois, e segue para o carro de Mateus.
Quer ser levado pra casa.
Mateus sorri, e segura na mão de Abner, tentando evitar que ele siga em frente.
“Calma, garoto. Pra que fugir? Seria só uma brincadeirinha a três.”
Abner fica irritado.
Puxa sua mão das mãos de Mateus e se afasta.
Quer voltar para o carro.
Não quer participar daquilo.
Não pensou que teria que dividir o namorado que acabara de conhecer logo na primeira noite.
Enquanto Abner seguia em passos acelerados na direção do carro, Mateus, confiante, seguia atrás. Lentamente, sem correr.
Ao olhar rapidamente para trás, Abner viu que o cara grande e forte puxou Mateus e entregou algo em sua mão.
Parecia um bilhete, um cartão, dinheiro, algo parecido.
Abner acelerou o passo.
Ficou mais irritado do que já estava.
Talvez aquilo fosse dinheiro e talvez aquele encontro fosse algo combinado.
Seu sonho de namoro havia descido por terra.
Abner queria estar longe dali o mais rápido possível.
Quando estava à metade do caminho entre o local onde estava e o carro, Abner viu carros da polícia entrarem no estacionamento do Ibirapuera.
Alguns homens puseram-se a correr.
Abner não entendeu bem o porquê.
Foi quando um estranho, percebendo que Abner parecia ser jovem, disse:
- Corre, amigo! Tão fazendo batida pra pegar prostituição de menores e pedófilos. Se eles te pegam, te levam para a delegacia para prestar “esclarecimentos”. Vão te entregar para sua família!
Abner não era prostituto e, num ímpeto de raiva, pensou até em denunciar Mateus por pedofilia.
“Bem que o desgraçado merecia” – pensou.
Mas Abner ficou com receio de ter que prestar algum esclarecimento à família como michê, e pôs-se a correr.
Correu por entre as árvores por alguns minutos.
Saiu do parque.
Queria ligar para alguém, mas lembrou-se de que deixara o celular no carro de Mateus por ter medo de ser roubado no parque.
Procurou por um telefone público para ligar para Mateus vir buscá-lo.
Estava numa grande avenida quando viu um carro parado, com o capô levantado.
Um loiro, alto e forte que mexia no carro, percebeu sua presença.
Os dois se olharam num olhar de desconfiança.
(CONTINUA)
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segunda-feira, 16 de março de 2009
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